Author(s):
Costa, Joana Catarina Mestre da
Date: 2013
Persistent ID: http://hdl.handle.net/10773/11502
Origin: RIA - Repositório Institucional da Universidade de Aveiro
Subject(s): Literatura; Poesia épica - Roma Antiga
Description
O século I, que desabrochou numa Idade de Ouro, não findaria sob o
signo da boa Fortuna inaugurada pelo primeiro Princeps. O século de Augusto
conheceria o seu fim!
A Literatura não pôde furtar-se ao fatum de todo um Império e, depois
de 69, juntamente com a Magna Vrbs, aguardava um tempo que fosse,
finalmente, capaz de uma renovação.
Para os anos oitenta do século I, prometiam os Flavianos e as suas
consecuções uma nova Aurea Aetas…
Porém, revelou-se impossível recuperar o passado: então, como
nunca antes, os abastados demandavam a púrpura e a populaça clamava por
panem et circenses. E a mudança definitiva dos tempos tinha na produção
artística das suas maiores provas — a clientela condenara os autores ao
abandono! Longe os círculos de Mecenas, apoiando Horácios e Virgílios que
podiam abraçar em exclusivo a sua arte…
Marcus Valerius Martialis foi não apenas um autor cuja existência se
ressentiria dos constrangimentos que esta época reservou aos poetas, como o
que faria da sua obra o mais fiel espelho do seu tempo. Aliás, não fora a sua
obra e não se compreenderia cabalmente como foi possível a um escritor
sobreviver a esses tempos e trazer à luz o seu trabalho — a uma luz muito
especial, na verdade: Hic est quem legis ille, quem requiris, / toto notus in orbe
Martialis (1.1.1-2)!
Para cantar o novo Império e o seu quotidiano, onde conviviam, a um
tempo, a grandeza e a torpeza, nada melhor que uma rude auena, jocosa e
mordaz... O epigrama, não a epopeia, era a nova voz de Roma! E Marcial,
elevando a sua auena, aplicou toda a sua mestria na celebração da sua Roma
e dos Romanos seus concidadãos — hominem pagina nostra sapit (10.4.10).
Teremos nós perdido um épico talentoso que se devotou e à sua arte a
um género menor ou teremos ganho um cantor ímpar que viveu em perfeita
harmonia com o seu tempo?
Alcançando a imortalidade, reservada, antes, para os épicos, Marcial
alcançou o seu objetivo: si […] / [...] fas est cineri me superesse meo (7.44.7-
8).
E, no entanto, o feito singular de Marcial foi dar cumprimento às suas
palavras — angusta cantare licet uidearis auena, / dum tua multorum uincat
auena tubas. (8.3.21-22) —, escrevendo, sob a forma de epigramas, a primeira
e, talvez, a única epopeia do quotidiano! The first century A.D., that begun with a Golden Age, didnʼt end under
the good fortune brought by the first Princeps. The Age of Augustus came to an
end!
Literature didnʼt escape the Empireʼs fatum and, after 69, together with
the Magna Vrbs, waited for a time that would finally be able of a renewal.
In the eighties, after major achievements of the Flavians, a new Aurea
Aetas bleached.
However, it was impossible to recover the past: more than ever before
the wealthy searched for purple, the populace claimed for panem et circenses.
The definite change of times had in the artistic production a major proof — the
clientela had left the authors by themselves! Far were the circles of Maecenas
supporting Horaces or Virgils who could totally dedicate to their art…
Marcus Valerius Martialis has been not only a writer whose existence
would resent the constraints that this epoch reserved for poets, as also the one
who would make his work the most faithful mirror of his time. In fact, if it was
not for his work, it would not be fully understandable how it was possible for a
writer to survive those times and bring his work to light — a very special light,
indeed: Hic est quem legis ille, quem requiris, / toto notus in orbe Martialis
(1.1.1-2)!
To sing the new Empire in its everyday life, at once, graceful and
disgraceful, only a rude auena, jocose and mordacious. The epigram, not the
epic, was the new voice of Rome! Martial, hoisting his auena, applied all his
mastery to the celebration of his Rome and his fellow-citizen Romans —
hominem pagina nostra sapit (10.4.10).
Have we lost a talented epic who devoted himself to a minor genre or
have we gained an unique singer that lived in perfect harmony with his own
time?
Achieving the immortality of epic writers, Martial reached his target: si
[…] / [...] fas est cineri me superesse meo (7.44.7-8).
Yet Martialʼs single did was fulfilling his words — angusta cantare licet
uidearis auena, / dum tua multorum uincat auena tubas. (8.3.21-22) —, by
writing, with the shape of epigrams, the first and maybe the only epic of the
everyday life! Doutoramento em Literatura